Artorquato
O espetáculo “Artorquato” sobre a vida e obra do escritor, poeta, jornalista e ator Torquato Neto (1944 – 1972), estreou dia 25 de agosto de 2006 no teatro do Centro Cultural Correios. A dramaturgia e a direção são do psicanalista Antonio Quinet, e no papel título está Gilberto Gawronski, ao lado de Cristina Aché, Rodolfo Bottino, Gisela de Castro, Gean Queiroz e Miguel Campello. O patrocínio é dos Correios via Lei Rouanet.
Torquato Neto foi um dos fundadores do Tropicalismo. O movimento foi a resposta artística e cultural aos anos de chumbo, e também um fenômeno de identificação de um povo com a sua alma miscigenada – uma revisão dos princípios da Semana de Arte Moderna de 1922. O movimento tropicalista deu voz à manifestação musical definitiva que uniu a poesia de Torquato às melodias de Caetano Veloso, Edu Lobo e Gilberto Gil. A montagem pretende resgatar a memória do Tropicalismo pela ótica do poeta que participou da sua fundação para logo depois se afastar e, mesmo se colocando à margem, jamais perder a verve provocadora.
O espetáculo narra a trajetória do herói rumo ao seu destino trágico. Torquato Neto é o protagonista, herói da tragédia de sua vida. A peça acompanha o poeta desde sua chegada ao Rio até o suicídio. Em cena, há textos de Torquato na íntegra. Autor de poesias e crônicas jornalísticas contundentes, foi um homem passional, radical e inconformado com a passividade que o cercava. Excluído da sociedade tradicionalista, traça seu destino, “marcado para morrer”, cumprindo-o precocemente com o suicídio em 1972, aos 28 anos.
“Artorquato” não pretendeu apresentar uma reconstrução histórica da vida de Torquato, mas sim uma visão dramática da conexão entre seu inconsciente e a sociedade em que viveu, dominada pela ditadura militar. A dramaturgia está fundamentada nos conceitos da psicanálise, que mostram as relações entre o que cada um tem de mais íntimo e o meio, feito de escolhas, parcerias e visão de mundo na convivência com os outros. Através da arte de Torquato, o espetáculo de Antonio Quinet levou o espectador a entrar no mundo fragmentado do Inconsciente.
A pesquisa conceitual para a elaboração do espetáculo foi iniciada dois anos antes da peça, e contou com o apoio de Ana Duarte (viúva de Torquato), Dr. Edmar Oliveira (amigo próximo e médico do atual Instituto Nise da Silveira, antigo Hospital psiquiátrico Pedro II, onde Torquato esteve internado), Paulo Roberto Pires (editor de Torquatália – obra reunida de Torquato Neto, Rocco 2004) e também das instituições Formações Clínicas do Campo Lacaniano (rede de pesquisa sobre psicose e arte) e do Instituto de Psiquiatria da UFRJ (Projeto Teatro & Psicanálise).
A montagem promoveu, durante toda a temporada, debates e palestras sobre o Tropicalismo, a obra de Torquato Neto, Arte e Loucura, Inconsciente e Linguagem, com a participação de psicanalistas, historiadores, críticos de arte e artistas fundadores do movimento tropicalista.
Contando com o Diretor Assistente Fernando Philbert, a ambientação cenográfica foi concebida pelo artista plástico Victor Arruda, pintor e desenhista, um dos expoentes da “Geração 80″ e executada pela cenógrafa Natália Lana. A luz é de Luiz Paulo Neném, a trilha sonora é de José Eduardo Costa Silva e os figurinos de Luiza Marcier, estilista da À Colecionadora. A programação visual é de Noni Geiger, filha da artista plástica Anna Bella Geiger.
Torquato Neto
Torquato Pereira de Araújo Neto nasceu em Teresina, Piauí, em 09 de Novembro de 1944. Filho de promotor público e professora primária, estudou no mesmo colégio que Gilberto Gil, em Salvador, tornando-se amigo do compositor e conhecendo também os irmãos Caetano Veloso e Maria Bethânia.
Em 1962 mudou-se para o Rio de Janeiro, onde iniciou o curso de Jornalismo. Um ano depois começou a exercer a profissão, dando início à carreira que lhe traria a fama de colunista da vanguarda cultural. Trabalhou em diversos jornais cariocas, e em 1965 se lançou como letrista, em parceria com Gil (“Louvação”) e Edu Lobo (“Pra dizer adeus”). A cidade vivia o auge dos festivais de música, do programa O Fino da Bossa e do movimento A Jovem Guarda. Torquato foi um dos mentores intelectuais do movimento tropicalista, participou da famosa capa do LP Tropicália ou Panis et Circenses (sentado ao lado de Gal Costa) – nesse disco estão incluídas duas de suas composições: Mamãe, Coragem e Geléia Geral (considerada o verdadeiro manifesto tropicalista).
Um dia após completar 28 anos de idade, ligou o gás do banheiro e suicidou-se. Deixou um bilhete: “Tenho saudades, como os cariocas, do tempo em que eu me sentia e achava que era um guia de cegos. (…) De modo q Fico sossegado por aqui mesmo, enquanto dure. (…) Pra mim, chega! Vocês aí, peço o favor de não sacudirem demais o Thiago. Ele pode acordar.” Era 10 de novembro de 1972.